Concurso de fotografia national geographic 2011

Concurso de fotografia national geographic 2011

© MARCO LONGARI Um dos piores momentos na África do Sul pós-Apartheid deu-se com a repressão brutal dos mineiros em greve na mina de Marikana: 34 mineiros foram mortos e 74 ficaram feridos quando a polícia abriu fogo sobre a concentração, deixando o país não só em choque mas também questionando-se acerca da visível falta de competência das forças de segurança, da gestão empresarial das minas, da liderança política e também dos sindicatos. Um sobrevivente participa numa comemoração religiosa assinalando o segundo aniversário sobre o massacre. Marikana, Agosto de 2014

No meio da auto-estrada cheia de gente, o homem ao meu lado repuxa as roupas do corpo todas molhadas. Respira com dificuldade através do pano que lhe cobre a boca. Centenas de outros, homens e mulheres, ocupavam o meio da estrada entre as duas faixas. 31 de Agosto de 2016. A Comissão Eleitoral do Gabão acaba de anunciar a reeleição de Ali Bongo Ondimba: o seu segundo mandato após a presidência do país pelo seu pai entre 1967 e 2009. A fila de manifestantes em marcha até à sede da comissão eleitoral é bloqueada a meio do caminho por um grande contingente de polícias de intervenção. Agora estão frente a frente: o gás lacrimogéneo satura o ar, os jactos dos canhões de água ensopam todas as vestimentas. Quando os estouros do gás lacrimogéneo e das balas de borracha começaram a cercar-nos, de repente, o homem move-se; voltando-se e levantando a voz sobre a multidão, diz: “On y va. On va y arriver. Au moins qu’on meurt, on va y arriver.” [“Vamos. Vamos conseguir chegar lá. A não ser que se morra, vamos conseguir.”] Manter o sentido do comprometimento político no meio de todo este caos não é tarefa fácil. De qualquer modo, como seria possível? O nível de violência ofusca o discernimento. A reacção explosiva, inesperada e total, de milhares de pessoas convergindo de uma só vez, meros estranhos entre si momentos antes, depressa transformada num rio que transborda: movem-se em uníssono ligados por um mesmo destino. É, deveras, uma visão poderosa. O que é que acontece na ausência de uma narrativa política coerente nos lugares onde esta força é reprimida ou desconhecida, misturada com identidades tribais e representada através de actos violentos em vez de bandeiras e slogans? O activismo político, o seu sentido e necessidade, desenvolve-se com a sua prática: ensaios contínuos capazes de afinar a sua dinâmica, a sua dialéctica. No meio de outra multidão de milhares de pessoas, debaixo de um céu pesado e encoberto, sou subitamente apanhado por um cheiro característico, um forte cheiro a peixe. Estou em Nairobi, num lugar que tem marcado a história política deste país: o Parque Uhuru – o nome do filho do fundador do Quénia, Mzee Jomo Kenyatta, o primeiro presidente depois da independência. Uhuru Kenyatta é o actual presidente, à espera de ser reeleito. O seu oponente político, Raila Odinga, filho do opositor político do pai de Uhuru, está neste mesmo lugar em celebração – no espaço que carrega o nome do opositor, no final de uma campanha eleitoral agitada pela violência constante. Odinga saiu da corrida eleitoral apelando aos apoiantes para que boicotassem a votação. Os termos do discurso são duros e a campanha é baseada em afiliações tribais. O peixe. Sinto-me a alucinar: um homem traz um cacusso à volta do pescoço. No meio de Uhuru Park, Nairobi. Os Luo, a tribo à qual Raila Odinga pertence, são pescadores originários das margens do lago Victória. Aquele peixe é o número de recenseamento deste homem. As lutas políticas em África são travadas em colunas específicas dos jornais locais, em estações de rádio muitas vezes sedeadas na Europa para escapar a proibições locais. O activismo é exercido em círculos restritos, raramente põe a cabeça de fora e, quando o faz, é muitas vezes imediatamente reprimido. A África do Sul é uma excepção: uma sociedade levada ao limite na época do apartheid, criou uma identidade política que conseguiu reunir a massa da população para lá da divisão racial. Esta distinta característica política, estruturada e educada, deve muito do seu sucesso a grandes homens, a um corpo de literatura e a uma coreografia bem ensaiada. A nação de Mandela celebra todos os dias o seu lugar político. Os protestos, as lutas, são pontuados por uma banda sonora capaz de catalisar milhares de pessoas: tornam-se num coro, um coro político muito definido e poderoso. A violência é um instrumento: um elemento fulcral na sua estratégia de comunicação. Noutros contextos, por contraste, a violência torna-se a voz de uma expressão política que de outro modo estaria ausente. Sem uma ocorrência diária, sem dissolução e sem um fervilhar contínuo, explodiria de uma só vez. Ardendo rapidamente, não se consegue conter – e aqueles que estão no poder irão deparar-se com o povo nas ruas, forçando sem tréguas, exigindo, desejando. Apenas por uns dias ou por um tempo muito curto. Por vezes, prolonga-se por horas. Todos sabem que aqueles homens e mulheres precisam de ir trabalhar para sustentar as suas famílias. O activismo político é um luxo que muito poucos conseguem suportar. Os dois turistas britânicos, de meia idade e peles cor-de-rosa de escaldão, mantinham-se na esquina da rua a ver os soldados gambianos a saltar aos pares de um camião militar, tomando posição a cada duzentos metros na avenida principal, pouco acima de uma zona mais cuidada onde estão vários hostels. Dois dias antes, a Gâmbia tinha ido a votos para reeleger Yahya Jammeh, um ditador excêntrico e brutal que comandou este pequeno país da África Ocidental ao longo de 22 anos. Por entre o tom tímido do protesto político antes da votação, os activistas quase que sussurravam os slogans: caras de precaução revelavam uma afiliação política sem futuro à vista. Quando, depois de um suspense de dois dias, o governo cortou o acesso à internet e pôs os militares nas ruas, os turistas do Thomas Cook “£750 tudo incluído” acordaram com os tanques posicionados nos principais cruzamentos ficaram a pensar se valeria a pena passar mais uns dois dias no resort fechados e sob o olhar atento de um soldado armado. Adama Barrow, o barão do imobiliário tornado líder da oposição, viu-se eleito presidente do país no final daquele dia agitado: Jammeh perdera as eleições e aceitara a derrota e saída do poder num memorável discurso transmitido à noite pela televisão. Os mesmos activistas que tinham desfilado timidamente sussurrando os seus slogans nas ruas de Banjul viram-se de repente do lado dos victoriosos – a alegria e o sentimento de alívio explodiram com a mesma timidez composta com que antes expressavam a sua revolta contra o ditador. A força da coesão produz a mudança. Por vezes, súbita e de grande impacto, como o golpe de Estado no Zimbabué ou esta história na Gâmbia. Outras vezes, mudanças subtis, quase imperceptíveis, como no Quénia. Se existe um ponto comum no processo de transformação da identidade política em África, esse ponto parece ser a certeza colectivamente partilhada de que o tempo dos regimes monolíticos já devia ter terminado. Porque, nos momentos mais difíceis, a coesão política no continente africano emerge sob a forma de uma vontade indómita de transformação: uma vontade feita de necessidade, de determinação, e de um activismo confiante e incansável. O homem ao meu lado junto à barricada a arder, em Nairobi, limpa a cinza da cara. Dezenas de outros, todos homens, ficaram até ao final da noite depois do anúncio da reeleição de Uhutu Kenyatta na segunda volta das eleições presidenciais do Quénia. Estamos a 30 de Outubro de 2017. Das varandas do edifício de cinco andares ao longo dos dois lados da rua, até ao centro do bairro de lata de Mathare, começam a erguer-se vozes acima do silêncio. Umas insultam a polícia de intervenção, outras gritam alto o nome do líder da oposição, Odinga. Em partes distintas do edifício consegue-se ouvir pessoas a tossir por causa do gás lacrimogéneo que paira no ar. À medida que o tumulto vai acalmando, o homem sai dali em direcção à entrada de um dos prédios. Quando me afasto para o deixar passar, ele levanta a cabeça e diz-me: “Vou vê-lo aqui amanhã?” “Vão comecar outra vez amanhã?” “Claro que vamos, Mpaka mwisho”, diz-me em Swahili. “Até ao fim. Até à morte.” ML Joanesburgo, Fevereiro 2018

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